quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Desirée (III)

[parte I - Decifra me enquanto te Devoro: Desirée (I)
parte II - Decifra me enquanto te Devoro: Desirée (II)]

Da maneira mais estranha que poderiam, exatamente como deve ser, se amavam. Um era do outro com uma condição: a de serem livres para o mundo, para os seus mundos. E compartilhavam alguns climas. As corridas na estrada, as gargalhadas ébrias, a poesia tatuada no braço esquerdo, o cheiro de rosas mortas... O beijo violento sangrando doçura... Eles sorriam um para o outro, com seus corpos.

- Não vai entrar?

- Depois...

- Larga esse cigarro!

- Vem cá, ta frio, to precisando de calor.

- Hoje não, hoje estou fria.

- Okay... Vem congelar um pouco comigo então. Bobinha, te amo.

- Não me ama, não. Lembra o que combinamos: amor não existe, apenas necessidade. Te necessito. Lá dentro, to num tédio...

- Mas sem beijos?

- Sem.

- E sem lágrimas, gatinha. Vou depois. Se você quiser ficar por lá... O povo todo veio.

- Se eu acabei de sair de lá...

- Ta. Vem cá. Quero curtir teu silêncio.

“Você sabe que eu odeio silêncio! Mas até que uma puta gótica abraçada a um rockeiro rebelde, encostados numa moto à noite em frente ao barzinho, calados e abraçados é um tanto neo poético.”

“Só nessa minha cabeça.”

- Diga tuas bobagens, faça me rir, Jack.

- Não. Hoje to a fim de ver você sendo angústia.

- O que?

- Necessito de você. Aprendi isso... Necessito de você sendo você. Eu fumo, você odeia...

“Porque teu pai também fuma.”

- Você chora, eu odeio.

“Porque minha mãe me largou para ficar com sua depressão maldita.”

- Te odeio, garoto.

- Também te odeio.

Se beijaram, se envolveram, tremeram com o frio. Não foi com o frio. Foi o abraço da solidão, gélido. Eram duas almas jogadas na sarjeta, buscando um no outro um abrigo que fosse, entre os espaços maculados de seus corpos.

Drama Queen n’ James Dean.

Meus olhos se emocionam com esse encontro surreal; perdi o sentido... Dentro do universo desses dois jovens eu perco o sentido. Sempre perco o sentido ao adentrar o coração do jovem. É devastador... Sonhos e Ruínas em plena alvorada.

“Sabe o que me machuca? Não é a incapacidade de alcançar os castelos de sonhos e jardins de objetivos. É a incapacidade de nem mesmo vislumbrar o horizonte. Cansei de planejar, mudar, vivificar minha existência e depois... Depois sou só eu com meus restos pisados, de novo.”

“Meu pai me culpa;”

“As pessoas me apontam, como se fosse pecado mortal dar-me ao léu. Se só ele é que tem me abrigado ultimamente... E o léu encontro nos braços de Jack. Mas não o amo, na verdade odeio. Odeio-o porquê aqueles braços são como ramos de espinhos, doem, ferem, mas tocam. Sim, eles me tocam!”

“Correrei disso tudo. Não prometo, não prevejo. Será impulso.”

“Quando estiver intoxicada de mim, correrei a ver o Sol, sentirei a chuva com prazer e respirarei o ultimo ar. Meu ar puro.”

Por hoje, por agora, ela curtiu o calor estarrecedor do salão, as pessoas putrefatas buscando formol em beijos cegos e a canção que nada diz, só toca e faz subir.



(e tem o 2º ato)

Magia, Paixão e Poesia - Decifra me enquanto te Devoro

5 comentários:

  1. Esses diálogos são tão reais, tão do dia a dia. Quantas diálogos eu poderia tirar da minha vida das coisas que eu falo com as pessoas, contudo, fora das folhas, dos meus textos, me falta uma poesia, um diálogo assim, bonito.

    beijos.

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  2. Adorei seu blog também!! :D
    Te sigo!!!
    Ah, eu não consigo escrever desse jeito... :(

    http://thaisacorrea.com/b/

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  3. Voltei a ativa Fil (:
    Li desde o começo e me encantei por esses episódios retratados em suas palavras.
    Parece mesmo real, imaginável.
    Um beijo!

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  4. estou lendo suas palavras com uma vela acesa.
    pingos de chuva me molham acaso.

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